O que procuramos em um time?

By 16/06/2020 June 19th, 2020 Fundadores

No começo da vida de uma Startup, o principal capital que ela possui são os sócios: seus conhecimentos, suas experiências, suas forças e suas fraquezas, seus potenciais e seus impedimentos. Um estudo publicado em 2016, por exemplo, aponta que o Capital Psicológico dos sócios é responsável por 34% do sucesso da empresa, enquanto o capital inicial da empresa é responsável por somente 8,5%. Por outro lado, a principal causa de fracasso das empresas, segundo Idalberto Chiavenato, é a inexperiência dos sócios (falta de experiência na área, incompetência, experiência desequilibrada e etc.).

Nossa experiência Darwin com startups também nos mostra isso: startups são pessoas e quem são essas pessoas e como elas pensam e agem no mundo é uma das questões mais importantes no que diz respeito ao sucesso e ao fracasso da empresa. Mesmo investidores anjo, como mostrou Odilo Schwade Júnior (Head de aceleração da Hards, nossa aceleradora de Hardware+Software) em sua dissertação, indicam que a questão principal ao escolher uma startup para investir é quem são as pessoas?

Essa questão, entretanto, não deve ser considerada somente no campo individual. Ou seja, cabe saber quem são as pessoas, mas também como essas pessoas estão organizadas, como elas formam, de fato, um time? Cabe destacar: um time não é a soma das pessoas que o compõe – existe um algo a mais. Esse algo é aquilo que transforma um agregado de pessoas em um time de fato. Esse algo é o que se passa entre as pessoas, as relações que elas estabelecem, os lugares que elas ocupam em relação umas às outras, os papéis que performam, o que desejam enquanto grupo, o projeto que as puxa em direção ao futuro. 

O dream team não existe

Uma das fantasias mais desafiadoras e danosas que temos de lidar é com o ideal de um time perfeito. Essa é uma ideia preguiçosa que surge para tentar acobertar o fato de que sempre é necessário dedicar tempo e esforço em desenvolver pessoas. Dentro dessa perspectiva de que pessoas são sempre um projeto, um “work in progress”, o nosso olhar começa a se expandir na procura de elementos diferentes.

Não perseguimos o ideal de encontrar o próximo [insira nome de um empreendedor estadunidense famoso aqui] mas sim de encontrar pessoas que estejam abertas e mostrem-se capazes de participar de uma experiência de evolução pessoal enquanto gestores e enquanto humanos.

O time como potencial

A questão não é tanto procurar o que um time é, mas aquilo que ele pode vir a ser. Esse potencial – o que a equipe pode vir a ser –  expressa-se, não no fato de o time mostrar-se “perfeito”, sem problemas, sem questões, mas justamente nas tensões e nas possibilidades de resolução dessas tensões em algo novo – ainda que essas resoluções não estejam dadas a priori. Dizemos “potencial” porque essas tensões não possuem somente uma resolução possível, mas um leque de possibilidades que podem ser vislumbradas, trabalhadas, melhoradas.

Há, evidentemente, elementos concretos das pessoas e dos times, por exemplo: experiência na área, experiência de gestão, motivação e etc. Mas, quando falamos em potencial, procuramos compreender justamente aquelas tensões e as resoluções possíveis que elas apontam. Como o time posiciona-se em relação às suas próprias limitações? Como é a flexibilidade dele em relação ao novo e ao diferente? Entendemos ao longo do caminho que um time com potencial concreto é um time que sabe aprender e que sabe tirar aprendizados das experiências, sem muito daquele ressentimento que brota de uma arrogância e um embrutecimento pessoal perante o conhecimento.

Essa flexibilidade e maleabilidade são fatores fundamentais, quiçá os mais importantes, quando analisando a relação particular entre os sócios. Times e pessoas que se enquadram no perfil que falamos agora há pouco também conseguem lidar melhor com os conflitos e divergências.

O time nunca está pronto

Ainda no campo das idealizações, uma outra fantasia recorrente (e também danosa) é aquela que faz acreditar que há um ponto final de desenvolvimento e evolução de um time ou de um empreendedor, isto é, que há um momento no qual o time está, por fim, pronto, perfeito, completo. Essa fantasia ignora e não consegue abarcar a complexidade humana. O ser humano nunca existe como um produto acabado, nunca existe simplesmente como resultado fixo do passado, ele é, em uma linha, sempre contemporâneo a si mesmo, ele está sempre atualizando-se, transformando-se. Essa transformação constante sempre introduz novas tensões, tanto na pessoa, quanto no time.

Times ou um empreendedores que se fecham à mudança, ao novo, que se deixam convencer por essa fantasia param de desenvolver-se. Um time que para de se trabalhar logo volta a ser somente um amontoado de pessoas. Um empreendedor, por sua vez, que para de se trabalhar logo choca-se com um desafio incontornável. 

O que nós procuramos então?

Um time de pessoas que estão sempre se trabalhando, lidando consigo e com os outros; um time que é aberto ao novo, que é capaz de elaborar conflitos e criar a partir disso, enfim: um time com potencial. Mas não só isso: é preciso observar também outras características dos empreendedores e dos times – mesmo porque nelas manifesta-se aquele potencial. Dizemos de um primeiro aspecto que ele é cognitivo. Ele diz respeito às coisas que o empreendedor sabe, às suas experiências prévias, à sua formação, mas também à sua visão de mundo, aos quadros (frameworks) que ele usa para pensar sobre o mundo, sobre os problemas, sobre ele e sobre os outros, à sua capacidade (ou incapacidade) de avaliar-se criticamente e de considerar suas forças e fraquezas, à forma como toma decisões e as executa.

Chamamos o segundo aspecto de afetivo. Ele diz respeito aos desejos dos empreendedores e do time enquanto grupo, ao alinhamento desses desejos, àquilo que motiva e desmotiva cada um no time, aquilo que os atravessa, que os empurra, enfim aquilo que faz com que eles façam o que fazem e não qualquer outra coisa, o que faz com que eles não desistam frente às adversidades.

É claro que esses aspectos estão relacionados, interseccionam-se e afetam-se de diversas formas: a forma como uma pessoa vê o mundo, por exemplo, é afetada por aquilo que ela deseja; as motivações dela também são afetadas por como ela vê o mundo. Um terceiro aspecto – que é definitivamente afetado, poderíamos dizer até, produzido pelos outros dois – refere-se à plasticidade do time. Ou seja: a capacidade desse time ser trabalhado, ser afetado por um processo ou por uma metodologia – enfim, algo muito parecido com aquilo que, no jargão do empreendedorismo, chamamos de coachable. Isso porque não interessa só escolher.

Dentro da Darwin, da Hards, da Lifes e de todos os projetos do grupo, nossa postura é observar como este potencial se apresenta e contribuir com seu desenvolvimento. 

Por:

Ug Cobra, Especialista em Psicologia Clínica e Empreendedorismo e Head de Pessoas – Darwin Startups

Leandro Aragon, Mestre em Psicologia Social, Psicólogo Clínico e Head de Pessoas – Hards

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